terça-feira, 31 de janeiro de 2012

E NÃO É QUE TINHA UM LUGAR PRA MIM?

A Mycobacterium vaccae, que está presente na terra e é inalada quando uma pessoa tem contato com o solo, pode ter um efeito benéfico: aumentar a inteligência.
Ontem eu estava assistindo a uma palestra no TEDXSanFrancisco, que aliás recomendo http://www.youtube.com/watch?v=prO85LDlvEA&feature=youtu.be . Ela me levou longe, longe...
Eu fui uma menina criada com muitas regalias. Toda vez que digo isso sinto que algumas pessoas sentem como se eu estivesse “me achando e aproveito pra revelar que ser jogado no mundo como numa selva é péssimo, mas ser muito poupado das realidades da vida também não é nada bom. A gente tem medo, se sente frágil, presa fácil, aí também se defende, mas de outras formas.
Meus Pais eram muito preocupados com a gente. Minha mãe com o comportamento, meu Pai com a cultura. Ele, que ficava pouco em casa se fazia presente com pequenos mimos que hoje percebo a razão. Eu era bem pequena ainda e gostava muito das revistas que meu Pai trazia, por exemplo, a National Geographic. Eu passava horas e horas recortando animais, plantas, flores e admirando aquilo tudo. (Assistam o vídeo que entenderão porque me lembrei disso).
Eu só recortava os bichos bonitos, principalmente filhotes só que um dia veio uma revista com um monte de cobras. Fiquei horrorizada. Elas eram bonitas, mas picavam as pessoas e as matavam. Tinham veneno, eram más! Então com medo delas até no papel perguntei: “Pai, porque existe cobra?” Ele parou de ler o jornal calmamente e me respondeu: “As cobras comem os sapos, se não fossem elas teria tanto sapo que a gente nem poderia andar.”
Ai Deus, mas sapo também era um bicho feio demais que eu tinha pavor. E, óbvio, na idade dos porquês, perguntei de novo. “Mas Pai pra que existe sapo?” e mais uma vez a explicação veio: “Os sapos comem os mosquitos, se não fossem eles imagine como seria...” Isso me deu um certo alívio. Eu não conseguia dormir com pernilongos zunindo...
Eu era criança demais para abstrair e chegar na cadeia alimentar. O que eu conseguia perceber naquelas imagens de excelente qualidade era que uns animais eram grandes e fortes, outros pequeninos, uns coloridos, chamativos, outros se camuflavam no mato, não gostavam de aparecer. Eles eram todos muito diferentes uns dos outros e pelo o que meu Pai havia dito, cada um estava ali por uma função importante.
Fui crescendo e quando comecei a freqüentar o mundo fui me achando meio babaca. Na minha família havia muita harmonia, sorrisos e fé, mas fora dali as coisas eram diferentes e eu sofria com isso. Não sabia caçar como os leões, nem tinha estômago para engolir sapos como as serpentes. Me faltava um pouquinho de veneno.
Segui babaca, aliás, segui borboletinha querendo ser onça pintada.
Depois de caminhar muito, admirar e invejar leopardos, leoas, panteras acabei sendo matriculada numa escola diferente e completamente sem querer. Não sabia eu que aprenderia ali que existia, como lá na selva, lugar pra todo mundo.
Lá temos os bons de briga, os bons de conversa, os bons de “vendas”, os bons de polêmica, os bons na teoria, os bons na prática, os que falam muito, os que ouvem. Temos os bons com dinheiro, os bons de pechincha, os bons de limpeza, os bons de política, os bons de fé,os bons de fila! Temos até lugar para os que vêem o mundo com óculos cor de rosa, os conciliadores, os bons de panos quentes, babaquinhas como eu. Foi quando descobri que existe sim lugar pra todo mundo. Existe até bactéria útil, bactéria que a gente acha que sempre tem que matar!
Essa constatação me ajudou a perceber a minha importância por aqui e a reconhecer o valor de pessoas que, com o temperamento que tenho, cheguei a abominar. O mundo também precisa delas pra chegar no equilíbrio. Num momento de grande discórdia nada com um mansinho para apaziguar, trazer paz. Num momento de desânimo, nada como um bravo pra por todo mundo pra cima de novo. O que garante a cadeia amorosa é a humildade, a responsabilidade e o respeito porque cada um precisa saber no que não é bom e dar lugar a quem sabe mais. A gente tem que se reconhecer no que sabe fazer e fazer. Esse tem sido o meu exercício.

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